eu, o frio e a noite e o dia

resolvi entregar meu corpo ao frio e ele foi o único que soube me aquecer esta noite. a luz, em sua ausência, destruiu todo o branco e tudo permaneceu negro e o negro foi completamente. fomos eu, o frio e a noite um só - un ménage à trois. não houve discriminação, não havia cor, não havia textura que pudesse se impedir, que não se pudesse tocar plenamente. e no escuro e sobre minha cama fomos iguais.

não dormi à noite; não pude. só a claridade, pra mostrar que cara tenho, assustou a noite que se foi com o frio, fazendo de mim pedaço de um todo, largando-me com o que, então, o espelho pôde revelar: alguém pior, à mercê das medidas que quiserem atribuir. jamais a noite se negaria a meus cabelos ou o frio a meus peitos ou à incertitude de uma madrugada disforme, posto que se fazia naquele quarto cárcere de vida qualquer coisa que jamais seria imagem e que me engolia a mim e a todos os meus lixos. o dia, ó dia, veio separatista, excluindo tudo de tudo, definindo um mundo de cores e formas delineadas em que, apesar de tudo, ninguém se vê mesmo.